domingo, 27 de dezembro de 2009

Regalia do sexo

Intimismo ou regalia do sexo? Acho que muitas coisas se perdem ao longo da vida. Perde-se a boca nunca tocada, perde-se a escrupência sexual, perde-se o desejo... Perdem-se também os dentes, as volúpias, os medos. Então se acrescentam os surtos, os meios, as condições, as experiências e se perde. Ao longo da vida tentar se definir ou limitar é inútil, tentar deixar de lado é bobagem, cresce-se com as tentativas e as oportunidades... Um meio homem é inteiramente generoso com o mundo, embora um homem inteiro seja completamente oposto à humildade. Tiram lucros àqueles que riem de suas próprias quedas, salientam-se aqueles que buscam os meios, as virtudes e perdas e completam-se aqueles que empreendedoramente constroem uma vida a dois; dá pra ser muita coisa durante a vida, dá pra ser qualquer e ser também igual, dá pra ser perdedor e vencedor, depende do modo como à gente encara as coisas ou do modo que nos vêem. Enxergar as nossas próprias verdades é um meio de ir em frente, arriscar-se doando ao máximo do que se pode dar, temer de osso a osso porque simplesmente é ser humano, aprontar sem perguntar a quem, deixar sem saber porque...


Na vida existem muitos pontos contínuos e até que a mesma venha a falir – pois a vida é um negócio mal construído – não dá pra reter e repelir um ponto final e querer estar, querer ser o que se pensa ser a vida toda, por mais que os buracos estejam todos embaixo ou até mesmo que não haja nenhum, há sempre um meio de abrir novas dores e caminhos para a queda, a sempre como os lucros sumirem e recriar-se é sempre um pedacinho de cada coisa, de um outro, de coisas que ao longo da vida deixamos que nos evadam, mesmo que sem perceber... Digo que a vida é sempre uma caixa de presentes que ao longo dos anos vem um em cada data comemorativa, digo que a vida também pode ser oposta a isso, digo logo que a vida é uma confusão, um medo de perder o outro e por vez de se ganhar e infelizmente acabar sem ter a quem oportunamente dar mais... Não dá pra simplesmente ser, mas creio que dá pra ser sempre um pouco mais, ou até mesmo posso dizer que não dá.

domingo, 20 de dezembro de 2009

“Política do mundo feliz.”

“Estão customizando tanto o amor que nem vale a pena acreditar no mesmo.”


Vulgaridade enorme nessas palavras.
Amor meia-boca esses que ficam na suspeita, na estreita, na calada. (Silencia)

Dia desses num telefonema de hábito com meu amor dormente – Porque é assim que eu considero início de relacionamento, morno, dormente, franzino, que acaba logo... Nem julgo amor, nem necessidade... Não digo e muito menos espero que funcione – caí em brasa ao ouvir um “eu te amo”. Deu-me uma raiva passiva ali, raiva porque é incrível como as pessoas se deixam levar pelo costumeiro dito: Eu te amo. Acho graça. Amor virou balela, frase feita e pronta pra quem te fez dar um sorriso ou dois. Coisa mais tosca. Amor não se encontra na esquina, nem em dois segundos. Parece que tudo virou filme, tudo é lindo. Não vou seguir a risca esses meros sentimentais. Decadência. Acho que é “tanto amor” que virou rotina. As pessoas precisam dizer pra ouvir, porque é de praxe mesmo.

Muitas vezes eu quis dizer que amo, sem amar. Refreei-me por pensar que amor é coisa magnânima, que melhor alguém se doer de osso a osso do que se deixar levar por insinceridade. Melhor pensar três ou quatro, até mesmo milhares de vezes antes do que dizer só por dizer aquilo que alguém disse que quer ouvir. Não vamos banalizar o que é efêmero. Não vamos destruir o que desconhecemos, ainda. Vamos deixar que o tempo nos transmita, deixar que a incerteza nos tome e se torne certeza, tornar as coisas cabíveis, aceitáveis antes de torná-las imundas. Amar é correr risco e silenciar faz parte... Mas, por favor, diga que me ama agora?
...

Acho que você não aprendeu.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Rabiscos.

Seria tua a minha primeira lamentação, a minha pressa, essa urgência que reparo e faço... Caneta e lápis na mão, papel, borracha. Se a vida pudesse ter esse brio de apagar as lembranças queria eu consolidar o amanhã, pegar as nuvens uma a uma e dar por começo a você. Tiraria o brilho das estrelas e em sussurros sopraria cada um a teu ouvido, te diria coisas e mais coisas que te mexeriam, calaria toda a minha voz e te cobraria um silêncio que viria distante, sofreríamos juntos a toda partida, por nós. E então remoeríamos os discos, os dias, as vinhetas, as cantadas, os outros. Separaríamos cada parte da novela, rabiscaríamos em negrito cada dorzinha, choraríamos uma dor nova, eu guardaria um dia e você ficaria sorrindo por saber que amanhã a gente inventa algo e volta, separaríamos um cordeiro e mandaríamos a sacrifício só pra ter certeza que a religião está ao nosso lado, mas eu lembraria que seria dia e esse dia não viria porque não é nosso, lembraria que dia sete de dezembro é um dia amargo que o que mal começamos já havia terminado, recordaria dez dias de abandono e felicidade... BORRACHA! Ai recomeça, repintamos esse sete, os dez dias, as lembranças, faríamos tudo diferente, ao menos aqui é uma certeza de que é o único lugar que eu sei que posso te guardar pra sempre. Não numa parede não pintada, não num dia sete que passou, não numa recordação barata, mas num livro da internet onde qualquer coisa que eu pense em fazer na hora marcada dá errado, te cobro um dia, mais outro, te cobro uma pressa, a mesma urgência... E não entendo nada, rabisco uma ou duas, apago. Só pra ter certeza de que não esqueço de lembrar... E ai me vem distante, a lembrança de que eu sei que esse amor que eu sinto não pode se apagar.


(A um amor passageiro...)

domingo, 13 de dezembro de 2009

"Corrimãos..."

Sabe de uma coisa, vou dizer que a minha verdade é feminina. Que o meu espírito se torna e entorna toda vez que alguém vai embora, que eu sofro calada, que eu grito e choro mais uma, duas, três e quantas forem precisas... Que eu sou pequena perante a grandeza do mundo, que eu sou selvagem quanto as minhas verdades, que eu corro sem direção nem tempo algum, que eu vivo e morro a todo instante. Vou dizer também que tenho um pouco dessa masculinidade transviada, que calo os anseios e vou embora, que deito e penso sem pensar em nada, que vou aos bares e bebo como um homem vivo e chego a casa e choro como uma criança sozinha... Vou dizer também que não sei nada, que sou de silêncios, que a intensidade não é minha, que a vida não é minha, que sou outro, outro que não sente, que não sentiu, que não sentirá, que nem se quer viveu...


E então serei tudo e todos até que eu possa dizer que me encontrei em mim, ou quem sabe não serei nada, só sentirei algumas vezes mais como homem ou mulher, sofrendo por tentar mais uma vez.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Escape.

“E quanto mais te tenho preso em minhas mãos, maior os espaços entre os dedos pro teu escape.”

Diria talvez que os refreamentos que tenho feito durante este tempo de solidão não me serve de nada quando um sentimento novo surge. Eu preciso de amor, preciso estar constantemente me doendo e sofrendo, me redescobrindo na relação a dois, refazendo os passos da felicidade e sentindo a faca do abandono atravessar meu corpo. Fazer meu punho se contorcer e remoer todo o passado, concluir e jogar fora em uma parte onde doerá quando eu vir, sangrará quando eu sentir, chorará quando eu não suportar.

Então abrirei o meu corpo novamente, sairei despido hoje. Inteiramente nu para que vejam e adentrem a minha covardia, os meus anseios e a minha sede, sede essa que escapa a todo instante... E solverei, dissiparei, cairei. Erguerei-me também, para que enfim possa mostrar que fui grande, soube sim cair, assim como tive a glória de levantar e criar a dor, sofrer a dor e morrer de amor, mesmo que uma vez mais... Mesmo que esse amor seja sozinho.



(Créditos pelo título à Andréa Laryssa Almeida Reis)




segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

... Lá vem o amor nos dilacerar de novo.

“Esquerda, Direita, Esquerda, Direita. 1 2... Lá vai e vai longe.”


Abre esse teu coração, abre, mas abre com força e sem medo.
Abre agora que essa sede que nos mede e nos entra corpo a fora é só instante, como a nossa inconstância deseja, eu te desejo... E não, não diga que não, porque a necessidade que vem de ti é maior que a minha e do que as nossas juntas. Diz-me como sempre diz, soa como sempre soa, fala que esse teu amor vale por nós dois, que a minha vontade pode passar e você ficará como um quadro onde eu olho a beleza e passo, longe, volto quando precisar e vou embora, dias e dias sem você... E se me perguntar, nem hei de sentir falta. Meu coração é gelado como pedra... Oras! E tu bem sabes, sou por inteiro e você mulher de meios, eu homem de termos, você de palavras e eu de silêncios.

Algumas vezes eu te cortei tão a fundo, lá dentro, onde o meu coração mudo ficava por uma simples esperança de nada, pra quê? De quê? Explica! Agora sou eu ou você que não fala? Foi embora, saiu porta a fora, perdeu o instante, doeu, passou, voltou, ficou e eu te deixei... Simples não? Mas, sabe, eu ainda te amo, mesmo com a dor que mata e me tira o fôlego aos poucos, eu ainda te sinto, eu ainda te vejo em mim... Como um só...

“Menos pela cicatriz deixada, uma ferida antiga mede-se mais exatamente pela dor que provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou de doer, embora lateje louca nos dias de chuva...(Caio F. Abreu)”

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Mulher-Maravilha.

Ela é a mulher-maravilha, trabalha, cuida da criança, arranja o jantar e ainda diz: “Como eu senti saudades o dia todo...” Eu não sei porque cacete eu deixei de gostar dessa mulher, dos chocolatinhos, os vinhozinhos, o fofinho e tudo mais... Vai ver é porque a gente gosta do que é complicado né? Vai ver também é porque eu deixo tudo ir escapando por não estar preparado pra essa emoção que há muito é abundante e relativa.

“Não meu amor, fecha bem devagarzinho a portinha do escuro. Ela não nos pertence mais.”

Sabe, eu sei que esses dias turvos que nos acalantavam me silenciou, não por destreza ou por infidelidade confidencial, mas porque todo mundo deixa, se despede e vai embora, mesmo que não seja inteiro, mesmo que ainda sim, não se pertença. Eu me pertenço agora, na verdade sempre me pertenci, porque eu conheço a dor como ela é, conheço cada pedacinho que faz com que eu me sinta vivo e até aqueles pedaços que me fazem cair morto, sem redes que me prendam. Você foi uma rede por muito tempo, não me deixou cair e também pudera, era uma rede forte e segura, até que eu lhe destroçasse ao meio, dizem por ai que quem ama segura e agüenta, mas quem é capaz de suportar tudo por amor? Eu não.

Eu dou as costas mesmo, vou embora de mansinho e nem digo tchau, porque se eu disser me sinto quebrado ao meio. E eu vou, mas vou inteiro. Talvez eu tenha aprendido a ter menos amor, só pra não deixar que esse amor, deixasse de ser amor.